quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Livro do desassossego
Livro do desassossego
No alto ermo dos montes naturais temos, quando chegamos, a sensação do privilégio. Somos mais altos, de toda a nossa altura, do que o alto dos montes.
O máximo da Natureza, pelo menos naquele lugar, Fica-nos sobre as solas do pé.
Somos por posição, reis do mundo visível. Em torno de nós tudo é mais baixo: a vida é encosta que desce, planície que jaz, ante o erguimento e o píncaro que somos.
Tudo em nós é acidente e malícia, e esta altura que temos, não a temos; não somos mais alto no alto do que nossa altura. Aquilo mesmo que calcamos, nos alça; e , se somos altos, é por aquilo mesmo de que somos mais altos.
Respira-se melhor quando se é rico; é se mais livre quando se é celebre; o próprio ter de um titulo de nobreza é um pequeno monte. Tudo é artificio mais o artificio nem sequer é nosso. Subimos a ele, ou levaram-nos até ele, ou nascemos na casa do monte.
Grande, porém, é o que considera do vale ao céu, ou do monte ao céu, a distância que o diferença não faz diferença. Quando o diluvio crescesse, estaríamos melhor nos montes. Mas quando a maldição de Deus fosse raios, como a de Júpiter, de ventos, como da de Éolo, o abrigo seria o não termos subido, e a defesa o rastejarmos.
Sábio deveras é o que tem a possibilidade da altura nos músculos e a negação de subir no conhecimento. Ele tem por visão, todos os montes, e tem, por posição todos os vales. O sol que doura os píncaros dourá-los-á para ele mais (que) para quem ali o sofre; e o palácio alto entre florestas será mais belo ao que o contempla do vale que ao que o esquece nas salas que o constituem de prisão.
Mensagem/Quinto Imperio/Cancioneiro
Cheio de Deus, não temo o que virá
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma
Claro em pensar, e claro no sentir
É claro no querer;
Indiferente no que há em conseguir
Fiel a palavra dada e à ideia tida
Tudo mais é com Deus
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Deus quer, o homem sonha , a obra nasce
\\\
Outros haverão de Ter
O que houvermos de perder
Outros poderão achar
O que no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado
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Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena
\\\
Só quem puder obter a estupidez
Ou a loucura pode ser feliz.
Buscar, querer, amar...tudo isto diz
Perder, chorar, sofrer, vez após vez.
A estupidez achou sempre o que quis
Nunca aos loucos o engano se desfez
Com quem um falso mundo seu condiz.
Há dois males: verdade e aspiração
E há uma forma só de os saber males:
É conhecê-los bem , saber que são
\\\
Passou, fora de Quando,
De Porque, e de passando....,
Turbilhão de ignorado
Sem Ter turbilhonado
\\\
Tudo tem outro sentido, ó alma
Mesmo o Ter um sentido
\\\
Onde está o sonho?
Não sei quem me sonha....
Vive o momento com saudade dele
Já ao vivê-lo
\\\
Saber? Que sei eu?
Pensar é descrer.
\\\
Chove? Nenhuma chuva cai...
\\\
Meu pensamento é um rio subterrâneo.
Para que terras vai e donde vem?
Não sei...Na noite que meu ser o tem
Emerge dele um ruído subitâneo
\\\
Procuro despir-me do que aprendi
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram.
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar minhas emoções verdadeiras.
Desembrulhar-me e ser eu.
Um animal humano que a Natureza produziu.
\\\
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade
\\\
Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei o quê do vôo suave
Dentro do meu ser.
De só sentir a terra e o céu
Tão belos ser
Quem de si sente que perdeu
A alma p´ra os ter !
\\\
Nada sou, nada posso, nada sigo.
Trago, por ilusão meu ser comigo
Não compreendo compreender, nem sei
Se hei de ser, sendo nada, o que serei.
\\\
Ter razão ,Ter vitoria, Ter amor...
\\\
Tudo que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade
Toma-me ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços
Despi a realeza, corpo e alma
E regressei à noite antiga e calma
Como paisagem ao morrer do dia.
\\\
Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento
Que não senti afinal.
Temos todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
\\\
Amamos sempre no que temos
O que não temos quando amamos.
Teus beijos são mel de boca,
São os que sempre pensei dar
E agora minha boca toca
A boca que eu sonhei beijar
Bem sei, és bela, és quem desejei...
Não deixe a vida que eu deseje
Mais que pode ser teu beijo
O poder ser eu que te beije
\\\
Não me digas mais nada. O resto é vida
\\\
O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão....
São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou a sonhar o amor.
São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.
\\\
Por quê esperar?---- Tudo é sonhar
\\\
Quer pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
Por nós, quer-nos, oprime-nos.
Para ser grande, sê inteiro:
Nada seu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha porque alta vive.
Ponho na altiva mente o fixo esforço
Da altura e à sorte deixo,
E às suas leis o verso;
Que quando é alto e régio o pensamento,
Súdita a frase o busca
E o escravo ritmo o serve.
\\\
Começo a conhecer-me. Não existo
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, ou metade deste intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim.....
\\\
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
Á parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
\\\
Tudo que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade
\\\
Meu coração é um balde despejado.
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
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